Internacional

"Temos de poder controlar o que se vai passar a seguir na Argélia"

Estas são palavras de Kamal Benkoussa, ativista argelino que participou no primeiro de três dias do Horasis Global Meeting, um fórum mundial sobre globalização que junta em Cascais mais de 800 participantes para tentar dar forma ao futuro

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

“Estou bastante receoso, a situação é perigosa”, diz ao Expresso o argelino Kamal Benkoussa imediatamente antes do início da sessão em que participa no Horasis Global Meeting que decorre no Centro de Congressos do Estoril até esta terça-feira.

Foi nessa ocasião que o fundador da Liga para a Democracia Argelina falou à assembleia sobre a situação que se vive hoje na Argélia, sublinhando que este é “o momento em que os cidadãos estão a dizer que não querem mais este regime”.

No painel intitulado “Open Society Upended” (Sociedade Aberta de pernas para o ar, em tradução livre), durante o qual se abordaram questões sobre elementos de transformação das sociedades e processos e democratização, Kamal Benkoussa explicou o longo processo de luta contra o regime argelino no qual participa mais ativamente desde 2014.

“Os partidos políticos são altamente corruptos e há uma total desconexão entre o regime e a maioria das pessoas”. Quanto aos entusiastas que dizem que com a partida do Presidente Abdelaziz Bouteflika, tudo melhorou, Benkoussa é cauteloso e esclarece: “O regime dividiu sistematicamente os argelinos ao longo de décadas, destruiu-lhes o coração e Bouteflika é apenas a cara dos últimos 20 anos”.

O ponto deste ativista argelino é também dar a conhecer a realidade da sociedade do maior país de África. Sem internet e antes da utilização generalizada de telemóveis e acesso às redes sociais, o regime controlava mais facilmente os cidadãos. “Hoje qualquer pessoa pode saber que os outros têm os mesmos sentimentos e desejos perante a repressão do Estado”.

Os maiores receios de Benkoussa referem-se a uma dúvida fundamental, conseguirá a sociedade argelina unir-se? Para as eleições de 2014, cujos resultados se previam que estivessem pré-determinados, o ativista tentou sem sucesso unir a oposição dando voz a um único candidato. A pergunta que faz hoje é se a população, altamente educada, conseguirá fazer oposição política unida.

Acredita que os argelinos vão “conseguir encontrar um novo modo de fazer a democracia”, mas, por enquanto, não é nada certo que isso ser conquistado de forma pacífica.

“Não basta ter olhos e ver. Temos de poder controlar o que se vai passar a seguir”, diz, referindo-se à transição política que os milhares de argelinos que se manifestam nas ruas das cidades de todo o país há dois meses exigem que seja controlado por eles, admitindo mesmo incluir no processo elementos do atual regime.