“Pensador de la Mancha”: as polémicas do homem que já não é ministro da Educação do Brasil
08.04.2019 às 23h05
AMANDA PEROBELLI/ Reuters
O plano mais recente era alterar os manuais escolares: diziam que não era ideia sua, mas uma medida desesperada para se aproximar do Presidente Jair Bolsonaro e de se agarrar ao cargo de ministro da Educação. Sendo verdade, não resultou. Ricardo Vélez Rodríguez, que chamou os brasileiros de “canibais que roubam” e considerou as conversas sobre género e sexualidade uma “maluquice” e um “crime”, foi demitido
Primeiro, as vozes ainda finas das crianças entoariam o hino do Brasil:
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.”
E terminariam: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. A ideia era a de filmar os alunos a cantarem e a gritarem o slogan que acompanhou Jair Bolsonaro ao longo de toda a campanha presidencial - e que, na verdade, este ainda o usa em pleno mandado. Depois, as imagens seriam divulgadas num spot promocional do Presidente. O autor do conceito foi Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da Educação. Desde esta segunda-feira, o ex-ministro da Educação do Brasil.
“Prezados Diretores, pedimos que, no primeiro dia da volta às aulas, seja lida a carta que segue em anexo nesta mensagem, de autoria do ministro da Educação, Professor Ricardo Vélez Rodríguez, para professores, alunos e demais funcionários da escola, com todos perfilados diante da bandeira do Brasil (se houver) e que seja executado o hino nacional”, podia ler-se no e-mail do ministro enviado para os responsáveis escolares, conforme noticia o jornal brasileiro “Estadão”.
A ideia não chegou a concretizar-se após várias críticas. Mas este é apenas um dos episódios que marcou a curta passagem de Vélez pelo Ministério.
Ainda na passada semana, Vélez anunciou numa entrevista à revista “Valor Económico” que queria que os alunos tivessem uma “visão mais ampla da história”. E esta amplitude implicaria “mudanças progressistas” nos manuais escolares para que as crianças tivessem “uma ideia verídica e real” sobre o golpe militar de 1964 (que o atual Executivo insiste que não existiu).
O agora ex-ministro acredita que os eventos da época foram “uma decisão soberana da sociedade brasileira” e que os anos que se seguiram de ditadura não foram mais do que “um regime democrático de força”. “Quem colocou o presidente Castelo Branco no poder não foram os quartéis. Foi a votação no Congresso, uma instância constitucional, quando há a ausência do Presidente. Era a Constituição da época e foi seguida à risca. Houve uma mudança de tipo institucional, não foi um golpe contra a Constituição da época, não”, defendeu.
Estas declarações surgiram num momento de instabilidade dentro do Ministério da Educação, como aliás foi praticamente todo o mandato. Segundo a imprensa brasileira, Vélez sabia que tinha o lugar em risco e quis assim aproximar-se do posicionamento de Bolsonaro, que várias vezes negou publicamente a existência do golpe militar com o objetivo de se manter no cargo.
Numa outra entrevista, Vélez defendia a importância da instituição e do ensino para mudar o comportamento “canibal” dos brasileiros quando viajam. “Roubam coisa dos hotéis, roubam o colete salva-vidas do avião, acham que podem sair de casa e carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”, disse à revista “Veja”, em fevereiro deste ano.
Ricardo Vélez foi ainda o responsável político pelo adiamento para 2021 da avaliação da alfabetização de crianças e por uma portaria que permitia comprar livros com propaganda e erros de português. Ambas as decisões foram revogadas. Foi também ele que defendeu que a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica fosse novamente obrigatória nos currículos dos alunos brasileiros.
Opção de filósofo de extrema-direita
Vélez, escreviam há uns meses os jornais brasileiros, não era figura muito notória na opinião pública. Tornou-se conhecido quando, no final do ano passado, o seu nome foi sugerido para o Ministério da Educação por Olavo de Carvalho, filósofo de extrema-direita e mentor político de Jair Bolsonaro. E por isso mesmo, diziam que Vélez era um dos “Olavista” (em parelha com Ernesto Araújo, atual ministro dos Negócios Estrangeiros).
Vamos a uma rápida biografia: tem 75 anos e nasceu em Bogotá, na Colômbia; só em 1997, já tinha passado a barreira do meio século de vida, pediu a nacionalidade brasileira. Licenciou-se, fez-se mestre e também doutor em Filosofia. Investigou em Paris. Foi professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, coordenou pesquisas e núcleos de estudos internacionais. Foi professor convidado dos mestrados e doutoramentos em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa.
Tem mais de uma dezena de livros publicados, refere o seu currículo, disponibilizado pelo Instituto de Humanidades brasileiro.
“Pensador de la Mancha” é o seu blogue, que não pode ser lido por todos. Só está acessível a convidados. Foi lá que Vélez publicou uma espécie de programa de Governo, em que expôs as suas ideias para uma escola sem partido, em que defende, segundo o jornal “Nexo”, que no século XX emergiram regimes que negam o “sagrado poder de a família educar os seus filhos” e em que considera as abordagens sobre género e sexualidade como “maluquice” e um “crime” contra as famílias.
O seu pouco tempo no cargo foi caracterizado por um impasse, há quem fale numa paralisação da educação. A deputada federal Tabata Amaral foi uma das críticas. Aos 25 anos, e a exercer o cargo pela primeira vez, atirou-se à falta de trabalho mostrado por Vélez.
- Num trimestre não é possível que o senhor apresente um Power Point com dois, três desejos para cada área da educação. Onde estão os projectos? Onde estão as metas?
Foi durante uma sessão na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados no final de março que Tabata Amaral o desafiou: “Espero que o senhor mude de atitude ou saia do cargo.”
Ele não saiu. Mas Ricardo Vélez Rodríguez, que foi o 53.º ministro da Educação do Brasil, foi demitido esta segunda-feira.