Diário da Peste. O som de deus desapareceu e o que ficou foi um cantarolar

10.06.2020 às 13h56

Diário da Peste,
9 de Junho

A floresta dos suicidas no Japão.
Uma floresta com cordas em alguns ramos.
Uma placa à entrada que diz: antes de fazer algo precipitado pense que a sua vida lhe foi dada pelos seus pais.
“amo o meu câncer, ensinou-me a viver”, diz uma mulher em Medellín, cidade de Pablo Escobar.
Agarro o tempo pelos cabelos, um provérbio. Mas tal não é possível muito tempo.
Na Colômbia, confinamento obriga professores a transmitir as aulas via rádio.
Em muitas aldeias, nem uma grama dessa internet que não pesa.
O que não pesa é bem mais caro do que uma pedra.
Mas a escola tem de continuar.
Uma professora diz: é preciso evitar “que os meninos sejam convidados para grupos armados ou cartéis de droga”.
As Variações Goldberg de Bach, os sons da boca de Gould, música paralela.
Pensar numa gravação sem piano, só a voz de Gould aos saltinhos.
Edison inventou um fonomotor.
As vibrações da voz humana punham em movimento máquinas.
Máquinas de costura sem pedais. E outras.
A potente voz humana. Os coros não sabem quando recomeçar.
Uma actividade perigosa, cantar a grupo de vinte o Requiem de Mozart.
Muitas vozes juntas em manifestações por todo o mundo.
Uma forma de coro civil e político, não estético.
“Em Oxford exige-se que a estátua de Cecil Rhodes seja retirada”.
“É-lhe atribuído o maior genocídio de negros africanos.”
Antuérpia, “foi deposta uma estátua de Leopoldo II.”
Edison quis contactar com mortos.
A técnica volta sempre ao mais primitivo.
Procurou criar uma máquina com vibrações que chegassem ao mundo afastado dos defuntos.
México: epidemia está próxima do pico, diz OMS.
As praias de Cancun abrem.
É preciso mergulhar como uma avestruz em turismo. Água quente.
Bell inventou o telefone.
Dizem que a primeira chamada tentada foi para a mãe que tinha morrido. Um número imaginário.
O mais moderno é o mais antigo: não perder a ligação com os mortos.
Uma tecnologia complexa que termina na frase: mãe, estás aí?
O presidente da câmara de Londres vai retirar estátuas e mudar o nome de ruas.
Mudança brusca da polis: quando as ruas mudam de nome.
Caminhas quase sobre outro solo quando o nome é outro.
Em dois meses muitos milhares não se despediram dos seus mortos. Mãe, estás aí? Pai, estás aí?
Há um novo telefone antigo exigido por muitos.
Voltar à primeira chamada.
Dizem que os chás de plantas milagreiras multiplicaram as vendas e algumas palavras mágicas voltaram à circulação.
Deus e os homens, relação atribulada.
O som de deus desapareceu e o que ficou foi um cantarolar à Glenn Gould.
Não é tudo, mas ainda é muito.

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Índice

Diário da Peste. Fielmente luto por tempo mais belo
Duas famílias são duas tribos respiratórias distintas
O tempo deixou de ser neutro, até os minutos tomam posição
O rosto humano, dois olhos