Diário da Peste. O Estado delimita a giz o que é obsceno e permitido
11.06.2020 às 19h51
Diário da Peste,
10 de Junho
Tesla estudava as vibrações da terra e das máquinas.
Fascínio pela energia que não se vê.
Fascínio recuperado cem anos depois com a pandemia.
Nunca tantos olharam tanto para o nada.
Os mais velhos devem encostar calcanhares e costas à parede 5 minutos de manhã.
Dizem nos jornais que é bom para o equilíbrio.
Tesla inventou um oscilador que gerava vibrações.
Muitas vibrações são necessárias para que um qualquer equilíbrio apareça. Vindas do norte e do sul.
Tesla fez uma experiência para abanar os objectos da sua sala sem tocar neles e gerou uma sensação de terramoto em Manhattan.
A vaga que criou no seu laboratório começou em bairros afastados e acabou nos seus objectos.
Testemunhos falam da semelhança com um desastre natural.
A sua sala começou a tremer e Tesla assustou-se.
Faço uma pausa para analisar de perto uma pata.
Segunda ferida da intempestiva Roma não sara.
Sexta, veterinário. Melancólica Jeri, Ok.
Destruiu a máquina com um martelo.
Duzentas pancadas são necessárias para parar uma máquina perigosa.
Vinte são suficientes para colocar KO uma máquina básica.
Tesla estava fascinado pela potente vibração da terra.
Vibração calada e não visível mas mais forte que a invenção mais forte.
A estátua de Colombo em Boston foi guilhotinada, leio.
Um corpo sem cabeça faz sempre tremer os corpos com cabeça.
Falta a parte humana do humano, mesmo que esse humano seja uma figura em pedra.
Em Itália e França, “familiares de Vítimas do Covid-19 apresentam queixas contra o Estado”.
Falta de informação, falta de recursos, falta de assistência e abandono, reclamam.
Outras estátuas de Colombo queimadas.
Tesla disse que se lhe dessem tempo suficiente e muito dinamite, ele conseguiria partir o planeta em dois.
Uma esfera partida em dois com dinamite e não com linhas simbólicas como na Guerra fria.
Metade para cada um, mas a sério.
O irmão de George Floyd diz que não consegue esquecer o vídeo.
Um acontecimento pode partir o tempo em dois como dinamite.
Conseguir partir o tempo com explosão, lei ou lâmina.
Actividade de político ou de perito em explosivos.
Carl Schmitt dizia que nas leis o estado de excepção é o equivalente a um milagre.
Em Inglaterra, os solteiros “estão autorizadas a ficarem com outra família.”
O Estado delimita a giz o que é obsceno e permitido na casa do senhor cidadão suspenso.
Lembram-me a cena sobre Vertigo de Hitchcock no filme de Chris Marker. As vertigens nas imagens dão poucas vertigens.
A cabeça de Colombo tapava o horizonte - isto poderia dizer um qualquer fanático das nuvens.
Só sete países têm mais mortos do que o Estado de São Paulo.
Governo Bolsonaro aprova uma lei apelando ao estado de excepção.
Durante a pandemia o governo pode eleger novos reitores da universidade.
A semelhança desfocada com o início do processo fascista nas universidades.
Ver documentação anexa na História.
Pensamos que o tempo se parte em dois, mas ele regenera-se sempre.
O tempo é mais resistente que uma lagartixa cortada a meio.
Vai buscar a cauda cortada e continua em frente.
O mesmo sol, mas outras bestas.
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Índice
O som de deus desapareceu e o que ficou foi um cantarolar
Fielmente luto por tempo mais belo
Duas famílias são duas tribos respiratórias distintas
O tempo deixou de ser neutro, até os minutos tomam posição