Diário da Peste. Do campo dizem que as mães começam a perder o medo
12.06.2020 às 21h01
Diário da Peste,
11 de Junho
Aos 94 anos, a Rainha Isabel II faz a sua primeira videochamada.
Foi a última a entrar “na chamada de Zoom e a primeira a abandoná-la, como exige a etiqueta real”.
França perdeu meio milhão de empregos até Março.
México ultrapassa a barreira de 15 mil mortos.
Trânsito e poluição voltam a Paris.
Cem padres espanhóis já morreram devido à pandemia.
A cantora brasileira Anitta diz que “saiu mais inteligente do confinamento”.
Robert Musil dizia que devíamos ser mais inteligentes às oito da noite do que às oito da manhã.
Alguns graffitis em estátuas parecem estar a aprender a escrever no suporte errado.
Deleuze no livro sobre Francis Bacon diz que não há tela branca, há tela sufocada por imagens anteriores, lugares comuns, etc.
O pintor, primeiro, tem de apagar toda a cor e figura que está na tela a fazer de fantasma. E só depois começar.
Obituário, Brasil. Sebastião da Lima Vasconcelos, 95 anos.
“Entre todos os desafios da vida, o que mais amava eram as palavras cruzadas. Morreu em Belém.”
É preciso “limpar, apagar, lixar e mesmo rasgar” a tela para permitir que o ar circule, escreveu Deleuze.
Talvez também assim com a história e com os novos projectos.
É preciso “limpar, apagar, lixar e mesmo rasgar” a História para permitir que o ar circule.
Talvez seja nisso que pensam os activos atacantes de estátuas paradas.
O ar por vezes não circula por vontade própria.
Do campo dizem que as mães começam a perder o medo.
Vão ao cabeleireiro e à missa. E já brincam com os melros que aparecem por todo o lado.
Um dromedário carrega uma biblioteca para combater a evasão escolar na Etiópia.
Uma campanha quer levar brinquedos às favelas brasileiras.
Sem escola, dizem, muitos não têm acesso a brinquedos.
Meninos sem internet a aprender a ler e a contar via rádio. Ainda as aldeias da Colômbia.
Rádio como a transmissora da informação essencial.
Aprendizagem de regresso aos ouvidos.
O século dos dois olhos grandes põe-se à escuta com o ouvido atento ao dois mais dois quatro e ao alfabeto.
“a alegria é a prova dos nove”, dizia Oswaldo de Andrade.
Voltar aos ouvidos no século XXI.
Uma amiga do Brasil diz que limpou cadeiras com desinfectante.
Elas ficaram quase brancas.
Parecia um convite para alguém se sentar.
Mas não há ninguém para se sentar e as cadeiras vão ficar num canto até se sujarem de novo. Não vê ninguém há dois meses.
“agora começa uma dura, uma inexorável viagem – em busca do mais longínquo possível”, escreveu Bataille
Uma viagem que queira chegar ao ponto mais afastado, no espaço e no espírito.
Muitos têm já a cabeça nesse projecto.
Encontrar o ponto mais longe de casa e aí fazer fogueira.
A tristeza é uma avaria no essencial; há poucos mecânicos para isso.
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Índice
O Estado delimita a giz o que é obsceno e permitido
O som de deus desapareceu e o que ficou foi um cantarolar
Fielmente luto por tempo mais belo
Duas famílias são duas tribos respiratórias distintas