Diário da Peste. O uivo da mãe à janela
13.06.2020 às 20h38
Diário da Peste,
12 de Junho
Dylan deu uma entrevista.
“Enojou-me ver George ser torturado até à morte”.
Os romanos escreviam maldições e pragas em pedras e atiravam-nas à água.
Estátuas continuam a ser atiradas para dentro de água depois de grafitadas com insultos, maldições e pragas.
Dylan sobre a pandemia: “Acho que é precursor de algo mais que está para vir. É uma invasão.”
Na rua, uma mulher ajeita a máscara como a um lenço por cima de uma jarra de água numa sala cheia de insectos.
Outra mulher vai de luvas, máscara e tremor, ao lado do marido ostensivo e descontraído.
A respiração tornou-se um assunto privado.
Quase não se expira para fora.
Expirar ar privado para o espaço público fechado tornou-se ilegal.
“Talvez estejamos à beira da destruição.”
Intempestiva Roma vem do veterinário sem o colar protector à volta do pescoço - talvez curada.
Economia britânica diminuiu mais de 20% em Abril.
No início dos anos 20 do século passado, em Berlim, um café podia custar 8 mil marcos.
O metal da moeda era mais valioso que o valor da moeda.
As notas começaram a ser impressas em tecido, cartão, papel de jornal.
A cabeça livre de um animal impõe respeito.
Um gira-discos numa feira de segunda mão. As muitas mãos em redor de um objecto.
É o toque dos outros que envelhece os corpos e as coisas.
Wagner dizia que uma execução perfeita da sua obra pela orquestra deveria “enlouquecer as pessoas”.
Bill Gates conta que na escola um vinil rodava no gira-discos propondo contas a uma enorme velocidade. 23+249, 842+97.
Música substituída por factos.
Um vinil que colocado no gira-discos dê notícias ou informações concretas.
Substituir a música pela informação.
Todo o som inútil destrói os ouvidos. Diz alguém num altifalante na minha cabeça.
Link. Bob Dylan, San Francisco Press Conference. 1965.
Ele faz uma pausa e a plateia ri.
Um comentário há um ano: um homem que gosta de ideias confrontado com uma plateia que gosta de factos.
Uma ideia por cem factos. Cem ideias por um facto.
Depende dos dias.
Por vezes, o dia é mais forte no exterior e por vezes mais forte na cabeça.
Nestas semanas de 2020 os factos ganharam valor, comprimento, largura e altura.
O dinheiro puro só tem valor, no limite nenhuma outra dimensão. Nem comprimento, nem largura, nem altura.
Um mistério material que não ocupa espaço.
Durante o perigo queres informações sobre a salvação, não música.
Allen Ginsberg na plateia da conferência de Dylan em 1965.
O uivo como título geral para toda a poesia.
Diferença entre o humano e o lobo: o humano também pode uivar.
Os impactos da pandemia nas mulheres, crianças e adolescentes.
7 milhões de gravidezes indesejadas, diz OMS.
O número de crianças com armas na América do Sul aumentou bruscamente.
Allen Ginsberg:
“Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração
destruídas pela loucura, famintas histéricas nuas,
a arrastarem‐se na aurora pelas ruas de negros em busca de uma dose feroz”.
As mães nas pequenas aldeias da Colômbia a uivar às janelas.
E a uivar pelos caminhos perigosos para os filhos ouvirem.
Escola suspensa devido à pandemia - e fala-se de raptos para os meninos serem ensinados a manejar armas.
Imagino a mãe que de tanto uivar fica mesmo lobo.
Só voltará a ser humana se recuperar o filho.
“Nós, violentos, mais tempo perduramos.”
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Índice
Do campo dizem que as mães começam a perder o medo
O Estado delimita a giz o que é obsceno e permitido
O som de deus desapareceu e o que ficou foi um cantarolar
Fielmente luto por tempo mais belo