Diário da Peste. A história não funciona assim
14.06.2020 às 17h25
Diário da Peste,
13 de Junho
O presidente da Magnum: “a pandemia causou um buraco negro informativo”.
Muitas histórias não foram contadas.
Alguém falava de um “virologista com ar muito feliz”.
Toda a alegria do especialista vem da observação do desastre em directo. Não de palestras sobre o passado em salas fechadas.
Um estudioso de terramotos salta duas vezes com o tremor violento do solo.
Salta de alegria e curiosidade - e pelo abanão natural das placas.
Hoje é sábado e estudo de forma fria o fogo que quase queimou.
O “esquecimento da exterminação faz parte da exterminação”, dizia Baudrillard sobre a questão do holocausto.
Todo o apagar de números e registos é um apagar do facto inicial.
Apagar uma morte é ação criminosa de higiene.
Há uma higiene individual e uma higiene do Estado.
Leio: “La pandemia amenaza la supervivencia de los indígenas de la Amazonía colombiana.”
Preciso de ar exterior e da simples marcha no espaço.
Avanço ao acaso com o mandamento de uma certa corrente artística: “o que eu encontrar será aquilo de que necessito”.
Não se trata de recolectar restos.
Mas de o resto ser material para uma fogueira urgente.
Pensar que a necessidade nasce do encontro com o que é necessário, e não antes.
Lembro-me de uma definição de Deleuze no seu abecedário. Lembro-me e esqueço.
Quando uma fala acorda um ouvido, há um encontro; uma pequena luz no meio da plateia escura.
Nos Estados unidos, um sobrevivente do coronavírus recebeu uma conta do hospital de 1,1 milhões de dólares.
Dez mil doentes americanos recuperados correspondem à dívida de um país médio.
Deviam juntar-se e fazer um pequeno Estado.
“A extrema-direita saiu à rua em Londres e houve confrontos com a polícia.
Viram-se saudações nazis e ouviram-se hinos racistas.”
Estátuas protegidas pela polícia. Mas também por saudações e hinos.
Penso em alguém que pega nos números de um dado e os baralha; repetindo uns, eliminando outros.
A sorte está viciada.
Descasco uma maçã e faço o exercício de a cortar em bocadinhos mais pequenos do que uma falangeta pequena.
Há uma higiene do espaço e uma higiene do tempo.
A higiene do espaço limpa superfícies, chão, paredes e até tecto, subindo pelo escadote.
Os bichos perigosos podem estar no chão, na mesa, na parede ou nos objectos.
Tudo brilha depois da limpeza do espaço.
E o sujo fica escondido atrás da manhã do dia seguinte à espera do momento certo de regresso.
O jovem Muhammed Ali treinava com um amigo.
Ele atirava-lhe pedras ao rosto e Ali desviava-se.
Treinou assim as esquivas no boxe.
Muhammad Ali recusou o seu primeiro nome que vinha da escravatura. Cassius Clay.
Escravo tinha o nome do dono dos escravos.
Ter o nome do dono dos teus pais. Ter o nome do dono dos teus avós.
Bem mais violento que um soco com luva em pleno rosto.
Um homem mudar de nome, uma rua mudar de nome, uma ponte mudar de nome.
E a arte da esquiva de Muhammad Ali; a pedra vem e o rosto no último instante desvia-se.
Dois versos de Auden:
“Observou com todos os seus órgãos de interesse/
Como caminham os príncipes”
E mais três versos de Auden.
“Voltou a abrir velhas tumbas no seu coração para averiguar
A que leis desobedeceram os mortos
e se foi essa desobediência que os matou.”
A limpeza do espaço afugenta vírus malignos e dá uma luz temporária às coisas.
Depois de um banho até qualquer humano vem com uma luz que não é totalmente sua.
Uma luz emprestada da água.
Vejo um virologista com ar muito feliz na televisão, mas sem som a felicidade fica muda. Perde metade da potência.
A higiene do tempo é menos visível, mas mais forte e violenta.
Limpam-se os tempos passados das suas impurezas, do pó e desse lixo que vem da bruta acumulação de erros e violência.
Mas não se vê o tempo a brilhar depois de limpo e desinfectado.
A História não funciona assim.
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Índice
O uivo da mãe à janela
Do campo dizem que as mães começam a perder o medo
O Estado delimita a giz o que é obsceno e permitido
O som de deus desapareceu e o que ficou foi um cantarolar