Diário da Peste. O nosso ensaio foi cancelado
15.06.2020 às 19h03
Diário da Peste,
14 de Junho
Mensagem da minha amiga grega, domingo:
“Primeira excursão fora de Atenas com o meu coro.
Primeiro encontro do grupo após o confinamento.
Fomos acampar no fim de semana numa praia linda, tocar e cantar.
Tudo óptimo, alegria e a energia de reivindicar a alegria.
E hoje de manhã pela hora do nosso encontro correu o rumor de que um jovem se afogou...
Alguns correram para ajudar, foi tarde demais, o rapaz da aldeia morreu.
Os uivos de uma ambulância no sítio menos provável.
O nosso ensaio foi cancelado, partimos do sítio mais cedo.”
Sensação de culpa. Um coro e um homem afogado.
Tarde, sol. Fim de tarde, sol; Günther Anders, primeiro marido de Hannah Arendt.
Livro sobre Kafka.
Anders fala da “fome moral” em Kafka.
Observar a expressão com microscópio.
A fome nunca se sacia em definitivo.
Daqui a pouco mais fome. Amanhã também. Mais fome moral.
Expressão que faz tremer. Brasil, manifestações na Paulista.
Muitas pessoas lado a lado separadas mais de um metro.
Cada um com a fotografia de um morto pela pandemia.
Parece exército bem alinhado, mas com uma imagem na mão.
A vida é um “processo de auto-acumulação de culpa”, diz Anders sobre Kafka.
Um conta-quilómetros substituído por um conta-culpas na cabeça.
Assinalar com um traço na parede cada culpa nova.
“A consciência anda em círculos”, escreve Anders.
Um círculo é uma forma de prisão.
Fizemos uma paragem no caminho, na fonte de uma aldeia, para cantar 4 músicas – diz a minha amiga.
Vi um dia este coro em Atenas; canções tradicionais gregas.
Instrumentos quase riem e pés impõem seriedade e ritmo.
Déjà-vu, mas auditivo: nunca ouvi isto e sempre ouvi isto.
Um regresso à música em todo o lado. Ouve-se na América.
Say It Loud - I´m Black and I'm Proud, de James Brown.
Raves ilegais em Manchester. Um morto.
Fala-se de pessoas em delírio em muitos pontos do mundo.
Festas escondidas.
Umas vezes violentas, outras vezes não.
Muitos saíram à rua esta semana e não foi para se sentar.
Delírio, etimologia provável. Do latim delirium.
Significava: acto do arado sair fora do sulco.
Lira: “sulco do arado”. Fora da lira, delírio: o arado sai do seu caminho, da sua linha.
Já não organiza o terreno, não faz o útil.
Faz simplesmente aquilo que não se entende: o torto e o imprevisível.
A história das palavras; perguntar a uma palavra: em que é que estás a pensar? Ela responde.
Estudo características de vários animais.
Quero fazer zooliteratura, isso para mim é claro.
Os bons ouvintes e os olhos mais esbugalhados não estão entre os humanos.
Leio que algumas formigas conseguem comer e guardar algo no estômago sem digerir.
Quando a comunidade precisa, elas regurgitam o alimento intacto para todos comerem.
É um “estômago social”, dizem.
Estômago individual, estômago social.
“Incluam-me de fora”, diz alguém.
Por vezes, isso.
Exigir a inclusão bem fora do círculo traçado com o teu nome com tanto cuidado.
Nas Américas e nas Europas, em movimento, uma fome moral colectiva.
Mas nem todos vão pelas mesmas ruas.
Uma menina dança à espera do pai; um cão está à porta a abanar a cauda; um homem acabou de partir uma montra e está a fugir.
E por vezes há três tiros nas costas.
“Não se pode errar no óbvio. Os erros têm de ser nobres”, diz uma cantora.
Imagino alguém que devora o alimento moral mas não o digere, guarda-o.
Mais tarde, quando o grupo necessita, ele regurgita esse alimento moral.
Mas nessa altura, talvez os outros agradeçam e digam que não.
Já estão saciados.
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Índice
A história não funciona assim
O uivo da mãe à janela
Do campo dizem que as mães começam a perder o medo
O Estado delimita a giz o que é obsceno e permitido