Diário da Peste. Levai-me de novo para casa, levai-me de novo para o mundo
16.06.2020 às 21h01
Diário da Peste,
15 de Junho
O instinto fascista vem de uma necessidade paranóica de arrumação do espaço e das coisas.
Diante do aumento da confusão e da desordem, esse instinto ganha ânsia e excitação.
Índia, ontem: carruagens de comboio convertidas em hospitais improvisados.
É preciso travar o movimento. Da máquina feita para sair do sítio, fazer hospitalidade e cama parada.
O arcebispo de Valência criticou as vacinas que estão a ser “desenvolvidas com células de fetos abortados”.
"É trabalho do diabo", disse.
Goethe e o seu Fausto.
Ciência de novo como aquilo quem vem com os sapatos pesados do diabo.
Ou com os leves sapatos de quem salva.
“Levai-me de novo para casa. Para que há de um jardineiro viajar?”. Goethe.
A frase que todos na cabeça ouvimos nas primeiras semanas da pandemia. Para que há de um jardineiro viajar?
Ficámos todos jardineiros mesmo que de jardim nenhum.
Levai-me de novo para casa, levai-me de novo para o mundo.
Este hesitar constante entre o jardim e o aeroporto.
Um jardineiro que vê aviões da sua janela.
E de viagem para ele basta viajar o olho pela janela.
Índia, outros tempos: um intocável só circulava fora do seu bairro “agitando as matracas a fim de que os homens de casta tivessem tempo de se afastar”.
Dele e do “vento que o envolveu momentos antes”.
Assinalar a sua própria presença com instrumentos e ruído.
A importância do vento nestes dias em que a Europa está cautelosa, mas com a cabeça ao ar livre.
Semanas onde em cada ponto do mundo a normalidade sofre abalos ou pelo menos modificações sucessivas.
Instruções semanais para humanos.
Instruções para humanos semanais.
O mito de algumas tribos: os ventos que vinham de longe entravam na inspiração e os ventos que iam para longe eram feitos do ar humano saído da expiração.
Inspiras o ar que vem do outro lado do mundo.
Vento e respiração, o mesmo material. Circulação entre a terra e os pulmões.
No Peru a quarentena “é controlada à chicotada por brigadas de camponeses”.
São as "rondas campesinas", eleitas pelo povo.
Uma mulher do grupo do místico Osho. Documentário.
Diz que ao colocar-se numa certa posição de meditação conseguia acertar com uma bala em qualquer alvo.
Tudo uma questão de respiração, disse. Yoga e pontaria.
Aprender gestos tranquilos para acertar uma bala na cabeça de outro sujeito.
“Cá, receio que o pior esteja para a frente: na saúde e na economia. Entretanto, há também alegria.” Grécia.
Sobre o rapaz que morreu ontem afogado perto de Atenas. Diz a minha amiga: era estudante da Escola de Dança.
Imaginar os terríveis movimentos num bailarino que se afoga.
Os bailarinos não se deviam afogar.
Uma bruta indelicadeza da água em relação a quem domina o solo com piruetas e saltos.
Kierkegaard e o “deus que exige demais”.
Temos de ser hábeis sobre a terra, hábeis no ar, hábeis debaixo da água e hábeis diante do fogo.
Um deus que exige demais dos humanos.
Em Atenas e no resto do mundo.
“O presidente dos EUA marcou para sábado um comício em Tulsa, numa arena com capacidade para 20 mil pessoas.”
Memória, documento e instinto – este diário.
Registar em directo tempos híbridos.
Parte final, estou exausto. Decidi terminar no dia 20, noventa dias.
Este sábado.
No diário de Pavese: aquele que não aprendeu, sucumbe.
E digo: aquele que sucumbe não pode continuar a aprender.
Precisamos de outra vida, claro. E ela virá.
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O nosso ensaio foi cancelado
A história não funciona assim
O uivo da mãe à janela
Do campo dizem que as mães começam a perder o medo