Este é o mundo que ele criou
17.03.2019 às 23h00
A forma como o homem-forte do Facebook liderou a empresa é escrutinada nesta série documental
Mariana Bazo/Reuters
É a rede social mais utilizada em todo mundo e liga 2 mil milhões de pessoas. Mas este planeta da partilha, controlado por Zuckerberg, esconde também muitos segredos. A série documental “As Mentiras do Facebook” estreia-se esta terça-feira à noite no Odisseia
No início, o mundo de Zuckerberg cabia no dormitório da Universidade de Harvard em que vivia e na qual estudava. E o mundo cá fora estava longe de imaginar que uma rede social criada por um estudante universitário pudesse tornar-se um gigante poderoso com milhares de milhões de utilizadores. E que o comportamento destes fosse monitorizado até à exaustão, para depois ser vendido em troca de muitos dólares. Aos quais se juntam outros números astronómicos provenientes da publicidade — que também domina e direciona para cada pessoa que entra no Facebook.
Longe vão os tempos em que se tratava apenas de um diretório de estudantes e hoje o debate é em torno do que realmente está a acontecer aos dados que cada um partilha. Será real a missão de Mark Zuckerberg de conectar o mundo através da internet ou tratar-se-á apenas de uma forma de camuflar as reais intenções de um empresário que controla um ecossistema de aplicações demasiado poderosas?
“Desenhou-se uma trajetória meteórica, com constante procura pelo crescimento, receitas e novos utilizadores”, expressa o canal Odisseia no documento de apresentação da série. E é nesse sentido que a série segue viagem. Aqui mostra-se como o Facebook se transformou “numa rede de vigilância, numa superpotência mundial e no ator principal de movimentos sociais e eleições de todo o mundo”. E dão-se também as respostas que há muito são esperadas sobre a plataforma.
“As Mentiras do Facebook”, minissérie documental da PBS — com assinatura do programa de documentários “Frontline” —, propõe-se desconstruir as ideias feitas em torno da empresa e explora as várias mudanças na organização desde o seu início. Uma das dúvidas em cima da mesa é qual o momento em que Zuckerberg e a sua equipa deixaram de se interessar pela rede social e se focaram nos dados a recolher (e como utilizá-los em seu benefício ou daqueles que por eles se interessassem). Outra é a altura em que começaram a soar os primeiros alarmes em torno da atuação da empresa. A resposta só pode ser dada no documentário, mas foi muito mais cedo do que até agora se julgava e os avisos não surgiram de forma isolada.
Foram várias as situações em que o Facebook foi alertado, tanto internamente como a nível externo, para a possibilidade de a sua ação estar a mexer com valores demasiado importantes para serem ignorados, como a privacidade ou a própria democracia. Mas nem isso os fez recuar, percebe-se agora. O real impacto ainda está por medir, mas algumas das consequências da falta de regulação já se fazem sentir. Em “As Mentiras do Facebook” percebe-se que aqui o dinheiro sempre falou mais alto.
Com recurso a material inédito e entrevistas exclusivas a atuais funcionários e antigos trabalhadores da empresa, o documentário de investigação apresenta a realidade a que a Humanidade fechou os olhos e conta com nomes fortes no seio da organização a desvendarem informações até agora guardadas a sete chaves. Mike Hoefflinger, responsável pelo marketing do Facebook à escala global entre 2009 e 2015, foi um dos que aceitaram o convite da PBS. E não poupou nas palavras, destruindo a fantasia criada em torno de uma ferramenta simples: “A criação do botão ‘gosto’ foi muito importante porque permitiu que o Facebook soubesse com quem [os utilizadores] se importam e quais são os seus interesses.” Não foi o único. No total, “As Mentiras do Facebook” conta com 13 atuais e antigos funcionários da empresa a falarem de viva voz, aos quais se juntam personalidades de outros quadrantes.
A VISÃO DE ZUCKERBERG
Embora não se trate de um trabalho biográfico sobre Mark Zuckerberg, a verdade é que este é também um documentário sobre o homem que prometeu um mundo “mais aberto e conectado” e cuja plataforma conta já com dois mil milhões de utilizadores. A equipa responsável pelo programa de investigação recolheu um arquivo extenso de declarações e aparições públicas de Zuckerberg para conseguir traçar-lhe o perfil e analisar como o multimilionário chegou até aqui.
Outrora olhado como um poderoso benevolente, o homem-forte do Facebook está agora sob escrutínio depois dos vários escândalos que afetaram a empresa. Das falhas na proteção dos dados dos utilizadores ao fenómeno das fake news e da desinformação, são vários os tópicos aqui explorados.
Liderada pelos produtores James Jacoby e Anya Bourg, aos quais se juntou a jornalista de “The Washington Post” Dana Priest — professora universitária e vencedora de um Prémio Pulitzer —, a minissérie documental “As Mentiras do Facebook” tem estreia em Portugal marcada para terça-feira, pelas 22h30, no Odisseia. É em dois episódios, com a duração de uma hora, que a verdade virá ao de cima.