Sociedade

Está a chegar um tempo em que controlam tudo o que vemos?

A concentração do sector de media e entretenimento em grandes grupos e empresas tecnológicas vai mudar o consumo de conteúdos

Os últimos acontecimentos podem ser vistos como uma fábula, ou não fosse um rato o símbolo maior da Disney e FOX, que é raposa em inglês, o nome da empresa comprada esta semana. Mas o caso agora encerrado — a Walt Disney fechou na quarta-feira a compra do grupo de media e entretenimento 21st Century Fox, por 71,3 mil milhões de dólares (61,5 mil milhões de euros) — não é a primeira grande mudança no mundo dos conteúdos nos últimos anos. E a história recente do sector mostra que todas as fábulas têm uma moral: o melhor é não menosprezar os players mais pequenos do mercado e perceber em tempo útil para onde estão a centrar a sua atenção. Se há poucos anos a Blockbuster, com os seus milhares de clubes de vídeo em todo o mundo, era um gigante e a Netflix uma formiga no oceano do entretenimento, esse mundo já não existe.

“O já complicado mundo do entretenimento e media está a crescer ainda mais, pelo que agora que os ativos mais valiosos da era digital estão identificados a competição por esses ativos está a vir de todas as direções concebíveis.”A consultora PwC não tem dúvidas quanto ao que vai acontecer neste sector e reuniu as principais tendências para o quadriénio (convergência, conexões e confiança) no “Global Entertainment & Media Outlook 2018–2022”. Esperam-se novos desafios e oportunidades na indústria, que está a mudar a uma velocidade acelerada. Certo é que essas alterações vão afetar a forma como os consumidores têm acesso aos conteúdos — e até ao que estará disponível nos próximos anos.

A concentração em grandes grupos traz vantagens competitivas e a possibilidade de aceder a um maior número de conteúdos parece vantajosa para os utilizadores/telespectadores. Mas a entrada de empresas tecnológicas num mercado até há poucos anos controlado por estúdios é um movimento de disrupção que terá mais implicações do que à partida se imagina. Os dados recolhidos e processados por gigantes como o Facebook, a Google, a Amazon ou a Netflix, todos eles a produzir séries de televisão neste preciso momento, vão levar a alterações drásticas no que será visto nos ecrãs nos próximos anos. A Netflix é a primeira a admitir que os algoritmos têm um papel de relevo nas escolhas que faz. E é quase certo que todas as empresas que tiverem acesso aos dados dos utilizadores os usem para criar programas à medida de cada um, sob pena de ficarem para trás — numa altura em que o tempo médio de vida das organizações continua a descer.

Os que hoje são verdadeiros colossos tecnológicos podem deixar de sê-lo em menos de nada — os dados são o novo petróleo — e a Apple é uma das empresas que está a preparar-se para um futuro ainda desconhecido. Aconselhada por diversos analistas a comprar a Netflix enquanto é tempo, a empresa está cada vez mais focada no segmento dos serviços. A maturidade do mercado de smartphones e os equipamentos a durarem cada vez mais começam a afetar as vendas de dispositivos. A solução da Apple parece passar pelo reforço da oferta na próxima semana. Em causa está a quase certa apresentação de um serviço de streaming concorrente da Netflix (e do Disney +, a lançar este ano já com conteúdos FOX), mas também um possível serviço de subscrição de jornais e revistas.

A estratégia está em linha com a análise da PwC, que nota como “as empresas mais inovadoras e com visão de futuro estão a esforçar-se para criar um ecossistema integrado adequado a uma dinâmica orientada para o consumidor”. Em causa está, por exemplo, a interligação das redes sociais e do comércio eletrónico com a própria experiência de entretenimento. A Google não ficará para trás e apresentou esta semana o Stadia, um novo serviço de streaming que considera ser o futuro dos videojogos.