Sociedade

“Trump riscou políticas que definem os EUA”

John Feeley Embaixador dos EUA no Panamá (2015-18)

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Teria gostado que a sua demissão do cargo de embaixador dos EUA no Panamá, em março de 2018, tivesse sido discreta. Porém, quando se soube que, após quase 30 anos de serviço diplomático na América Latina, saía em rutura com “os valores do homem no topo”, John Feeley foi transformado “num ícone de esquerda, um dissidente de Trump”. Ao longo da vida votou em republicanos e democratas para a Casa Branca e demitiu-se por “sentido de integridade”. Como um diplomata nunca deixa de ser diplomata, nem mesmo reformado, estará em Portugal para participar no Horasis Global Meeting (6 a 9 de abril), uma conferência internacional com centenas de participantes desenhada para contribuir para dar forma ao futuro.

Seguir a política de uma administração pode ser uma provação? Há algum acordo que dite que certas coisas nunca mudam na relação dos EUA com outros países?

Não, não existe e eu diria que a política externa da Administração Trump tem sido tremendamente iconoclasta, ao nível de um touro numa loja de porcelanas. Donald Trump riscou eficazmente muitas políticas que definem os EUA há mais de meio século: a solidariedade inquestionável com a NATO ou o reconhecimento de que o acordo comercial com o Canadá e com o México é essencial para a prosperidade dos EUA...

Concluiu isso a posteriori?

Sim, durante 30 anos fui levado a acreditar, que a consolidação e promoção da democracia, que é a coisa certa e inteligente para os EUA fazerem, seria promovida por todos os presidentes, democratas ou republicanos. Trump disse abertamente que não considera a consolidação e a promoção da democracia uma política prioritária. Descreveu esta administração em documentos de política externa e de segurança como uma “realpolitik pragmática” nas relações externas. Não é bem verdade, porque promove os direitos humanos na Venezuela, em Cuba ou na Nicarágua, mas não na Arábia Saudita. Não, não se deve esperar que um Presidente faça isto ou aquilo. É por isso que já não sirvo este Presidente.

Qual foi o ponto de rutura?

Os valores por trás da política externa e os valores do homem de topo relativamente a questões internas como a política da imigração, a reversão do Obamacare... foram os comentários sobre raça que Trump fez sobre Charlottesville [onde em 2017 confrontos entre antirracistas e supremacistas brancos causaram uma morte e vários feridos] e o facto de não ter condenado aqueles acontecimentos. Ele aproveitou o apoio de um grupo de franja de neonazis e racistas para manter a popularidade eleitoral.

Como analisa o êxito eleitoral de Trump? Será que fingimos que esses eleitores não existiam?

Sempre existiram, todas as sociedades têm os seus extremistas e racistas. O que não avaliámos bem foi o número de eleitores que não eram nada disso, mas odiavam Hillary Clinton com paixão visceral. Para compreender o resultado das eleições de 2016, é importante que, em particular os europeus, consigam separar os neonazis dos brancos conservadores e dos republicanos que vão à igreja e não suportavam a Hillary Clinton. É justo dizer que, em reação à eleição do primeiro presidente americano negro, que deu importância a assuntos antes incomodativos como a igualdade de género e racial, estatuto socioeconómico de várias etnias, todos tópicos quentes para um país que teve escravatura até há apenas 150 anos. Houve uma reação forte, compreensível, dos homens brancos mais velhos e com menos educação a um Presidente sofisticado como Obama, apoiado por uma administração que deu prioridade aos direitos LGTB, direitos das mulheres e raparigas.

Quem votou Trump por ódio a Clinton terá sido surpreendido pelo resultado? Será que vão votar noutro candidato em 2020?

É a minha esperança! Trump escreveu no seu livro, há muitos anos, não acreditar em consensos nem em situações benéficas para ambas as partes. Não mudou, é muito coerente, porque é um narcisista nato que só pensa em si próprio. Não é especulação: muitos votaram nele por ódio a Clinton, dois mandatos de Obama, anos de estagnação de salários e um sentimento de perda da identidade de macho branco americano. Nem gostavam de Trump, e o próprio Trump nem pensou que iria ganhar, foi Steve Bannon [antigo estratego da Casa Branca] que manobrou a marioneta, é ele o verdadeiro nacionalista. Muitos pais, irmãos e maridos neste país não gostam da forma como o Presidente fala sobre as mulheres. Muitos militares não gostam que Trump diga que sabe muito mais do que os generais.

Quem são os atores mais importantes na Venezuela?

O que estamos a ver já aconteceu antes. É um erro só olhar para o período desde janeiro, em que Nicolás Maduro tomou posse de forma ilegítima, seguindo-se a tomada de posse pelo legítimo presidente Juan Guaidó, ou desde que este e os seus tentaram fazer chegar ao país a ajuda humanitária que é desesperadamente necessária. O mundo sabe, agora, o que representa um horrendo ditador como Maduro e o seu regime. O problema é que eles ainda têm armas, ainda têm a Rússia, até certo ponto ainda têm a China e, mais importante, ainda têm Cuba.