A imensa solidão das redes sociais: falta pele, olho, temperatura
07.04.2019 às 18h00
A utilização intensiva das redes sociais intensifica a sensação de solidão, mesmo entre os jovens que tenham, à partida, uma boa rede de relações sociais e familiares
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Não são apenas os solitários que procuram as redes sociais - são as redes sociais que isolam as pessoas. De acordo com um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, a melancolia instala-se porque o cérebro humano não reconhece como interação as horas passadas em frente a um ecrã
Ter um namorado, estabelecer boas relações com a família, ter amigos com quem sair para beber um copo pode não bastar para um jovem se sentir acompanhado, inserido, completo. Se em causa estiver alguém com elevado nível de dependência da utilização das redes sociais, a solidão poderá ser um destino sem saída. Uma consequência do funcionamento do cérebro humano. De acordo com um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA-Instituto Universitário), o sentimento de solidão aumenta mesmo entre os jovens que passam mais tempo “ligados” nas redes sociais.
Em causa está a própria natureza da comunicação online, capaz de provocar o sentimento de solidão, mesmo que à espera do utilizador esteja uma rede de amigos, familiares, todo um mundo de interação física e presencial. Porquê? Porque falta riqueza sensorial, falta o cérebro ser despertado e identificar o tempo passado com dispositivos eletrónicos como momentos de relação.
O estudo foi feito com base num inquérito realizado entre 2015 e 2016 junto de 548 jovens entre os 16 e os 26 anos, em Portugal, e os resultados foram publicados numa revista académica — “International Journal of Psychiatry of Clinical Practice”. Os autores, Rui Costa e Ivone Patrão, partiram em busca do estabelecimento dos níveis de dependência e da recusa em relacionarem-se com outros jovens e acabaram por perceber que havia um mecanismo independente que provocava o sentimento de solidão e que não dependia da existência prévia de uma rede de relações familiares e de amigos.
“O raciocínio inicial era de que seria a Internet a levar as pessoas a passarem menos tempo com os amigos, desencadeando a solidão, mas o que percebemos é que é a própria Internet que provoca o sentimento de solidão”, explica Rui Costa, investigador do ISPA.
O motivo pode radicar muito longe, nas origens e na evolução da própria espécie humana, que percecionou a convivência e a vida em sociedade como um elemento fundamental à sobrevivência. Assim, os mecanismos cerebrais precisam de encontrar determinados níveis de interação face a face para reconhecer uma relação como tal. “Nas relações online, falta a troca de olhares, a utilização do tato e do olfato, falta riqueza sensorial”, explica Rui Costa. Quando este contexto não está presente, o cérebro reage como se estivesse sozinho.
A experiência clínica de Ivone Patrão, também do ISPA, é de que “mesmo quando os jovens surgem nas consultas sem terem à partida um registo de dependência online, quando o processo de investigação começa percebe-se que a ligação às redes sociais está lá”. E, por isso, defende que, nesta geração, deixou de fazer sentido pensar na possibilidade de abdicarem dos gadgets. “Esta relação é já inevitável, o que é necessário é que se perceba que, para lá da socialização digital, é sempre preciso haver socialização presencial”, diz.
Mais do que as horas passadas de olhos postos nos ecrãs, as pessoas precisam de perceber que o contacto presencial faz parte — e tem de fazer parte — do quotidiano. “Sobretudo porque a tendência é que só sejam partilhadas nas redes sociais as experiências positivas e, quando não há nada de positivo para se partilhar, estas pessoas isolam-se”, explica Ivone Patrão.
Com investigações na área da sexologia, Rui Costa defende que a dependência dos mecanismos online cria nos utilizadores um sentimento semelhante ao da masturbação, quando para encontrar os mesmos níveis de satisfação é sempre preciso recorrer a mais e mais manipulação, com índices de satisfação imediata e volátil. “Cria um breve sentimento de euforia que não tem ressonância no cérebro e este é um processo transgeracional, mas a que os jovens são especialmente sensíveis”, afirma Costa. Por isso, diz, “há pessoas sozinhas que procuram companhia nas redes sociais, mas há também outro tipo de pessoas, que tendo as suas redes de relações, sentem-se sozinhas quando têm níveis elevados de utilização das redes sociais”, explica o investigador.
Mas o que é dependência, quando se fala de redes sociais? “É difícil definir, mas quando as pessoas se sentem desconfortáveis por não estarem ligadas, quando a utilização interfere com a produtividade laboral, quando interfere no sono ou se recorre às redes sociais para resolver problemas quotidianos e não se reconhece a própria dependência, o mecanismo que se estabelece é semelhante às dependências de estupefacientes ou do álcool”, afirma Rui Costa.
O próximo passo nesta área já está a ser dado, com uma investigação sobre os níveis de “phubbing”, ou seja, quando a utilização de um “smartphone” leva a que alguém ignore o outro. Rui Costa quer perceber o que se passa nas clássicas situações em que, na presença de um amigo ou namorado, na mesa de um restaurante, cada um com o seu telemóvel na mão, nem olhares são trocados. Também Ivone Patrão sente que esta área de investigação precisa de ser aprofundada, “em estudos mais qualitativos e com idades mais precoces, de forma a se poder fazer uma triagem dos comportamentos de risco”.