Sociedade

Como o verão se tornou um ziguezague entre seca e chuva intensa. “Rompemos todos os padrões da normalidade”

26.08.2019 às 9h10

A diluição das estações do ano e o impacto das alterações climáticas estão à vista. Em julho, choveu granizo do tamanho de bolas de golfe, em Mogadouro. Na semana passada, o IPMA alertou o país para a ocorrência de noites tropicais. Já esta segunda-feira, em pleno agosto, o cenário mudou radicalmente: cinco distritos estão em alerta laranja, devido a chuva intensa e trovoada. Este é o novo normal

Enquanto a Amazónia arde, Portugal oscila entre períodos de seca ou chuva. Um problema não é equivalente ao outro, claro, mas há um ponto de ligação entre as duas tragédias ambientais: o impacto das alterações climáticas. O aumento médio da temperatura ao nível global, que se tem registado nas últimas décadas, é um empurrão para a propagação dos incêndios. Mesmo quando o calor não espoleta fogos (ou atiça aqueles que tiveram origem humana), faz reduzir as reservas hídricas. E por isso os portugueses deviam estar preocupados, independentemente do que chova nos próximos dias. Segundo dados do IPMA, 9,2% do país estava em seca extrema em julho, fenómeno com particular incidência na região do baixo Alentejo e Algarve.

Uma nesga de “sorte” poupou Portugal este ano às ondas de calor que se fazem sentir noutros países europeus, constatam dois especialistas em alterações climáticas ouvidos pelo Expresso. “Não houve nenhuma intervenção humana neste acaso. As correntes de vento ‘saltaram’, digamos, Portugal”, explica Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS).

Em junho, os termómetros em França chegaram aos 45,1ºC. Por terras lusas, em pleno agosto, os banhistas queixam-se da falta de regularidade do tempo, das baixas temperaturas do mar. “Não sentimos o impacto da onda que calor que assolou o centro da Europa este ano, mas, na verdade, nós temos mais tendência para secas que os países dessa região. E quando acontecem cá, as ondas de calor duram muitos mais dias”, explica João Camargo, investigador de alterações climáticas, que faz também parte do movimento Climáximo.

A comunidade científica é unânime: há uma tendência evidente para o clima do norte de África saltar o Mediterrâneo e instalar-se nos países do sul da Europa. “Estamos a assistir a um decréscimo da precipitação anual desde a década de 1960. Temos perdido, em média, 30 mm por década”, alerta Filipe Duarte Santos.

Segundo o especialista, as secas em Portugal não são um acontecimento inédito. “Há documentos históricos que falam em períodos de escassez de água graves, com milhares de mortos. Na época, as maçãs não vinham da Nova Zelândia, nem a carne da Argentina. Sempre houve secas. Agora tornaram-se foi mais frequentes”, explica. Em março deste ano, em declarações ao Expresso, o geofísico Pedro Matos Soares já havia deixado um aviso análogo: a frequência de ondas de calor nas próximas décadas irá aumentar.

Com as alterações climáticas, porém, o tempo tornou-se verdadeiramente imprevisível: em julho, choveu granizo do tamanho de bolas de golfe, no concelho de Mogadouro, o que causou prejuízos a muitos viticultores; na última semana, o IPMA alertava o país para a possível ocorrência de noites tropicais, com temperaturas mínimas superiores a 20ºC; já esta segunda-feira, o cenário mudou radicalmente: cinco distritos estão em alerta laranja e o IPMA alerta para a ocorrência de trovoada e chuva intensa.

Estamos mesmo no verão? “O desaparecimento das quatro estações é facilmente percetível. Rompemos todos os padrões da normalidade. Este ano, temos um verão menos quente do que a Alemanha ou a França, o que não é de todo normal”, nota João Camargo.

Alqueva

Alqueva

Pouca água, muita terra

A depleção dos recursos hídricos não é só um problema a acautelar nos meses de verão. Em janeiro e fevereiro deste ano, meses tipicamente associados a baixas temperaturas e chuvas, várias localidades na região de Trás-os-Montes tiveram de ser abastecidas por camiões cisterna. De acordo com o IPMA, no segundo mês do ano, 4,8% do país estava em seca severa e 57,1% em seca moderada; o registo do mês seguinte, todavia, é ainda mais gravoso: 37,6% do país encontrava-se em seca extrema e 45,1% em seca moderada.

Segundo Filipe Santos Duarte, o montado, o ecossistema mais comum no Alentejo, é particularmente vulnerável à seca, pois a variedade de fauna e flora que contém necessita de grandes quantidades de água. Em teoria, esta região do país pode ser sempre abastecida pelo Alqueva, lembra. Todavia, em Trás-os-Montes ou nas Beiras não há reservas semelhantes.

A norte, porém, existe quem já se esteja a acautelar. Na região do Douro, algumas das quintas que produzem vinho do Porto têm em curso verdadeiros programas científicos. “A quinta do Bonfim, da família Symington, por exemplo, tem vindo a colocar diferentes castas em encostas particularmente agrestes, para ver quais são mais resistentes, que conseguem produzir até nas condições mais extremas”, conta o especialista. Acontece que este conhecimento, desenvolvido e acumulado por privados, “não está a ser divulgado, nem chega aos pequenos agricultores”, lamenta.

João Camargo tem uma posição diferente de Filipe Santos Duarte quanto ao Alqueva. Para o investigador, aquela bacia de água não passa de uma solução no curto-prazo para o sul do país. A água do Alqueva tem uma “enorme carga de sal”, o que irá contribuir para uma degradação progressiva dos solos. “No médio prazo, daqui a 20 ou 30 anos, estamos a garantir a falta de produtividade”, avisa o investigador português. A tentação exercida pelas “cash-crops” - culturas com muita procura num determinado momento -, leva ao investimento em "plantações sem sentido e pouco apropriadas às condições naturais do solo”, avisa.

Filipe Duarte Santos

Filipe Duarte Santos

José Carlos Carvalho

O futuro passará pelo racionamento?

E se cada cidadão tivesse um volume máximo diário de água que pudesse gastar? A questão começa a ser levantada por alguns cientistas internacionais, como possível resposta à escassez de recursos hídricos. No entanto, nem Filipe Duarte Santos nem João Camargo são adeptos da ideia de racionamento. Para o presidente do CNADS, Portugal deve sim procurar “novas disponibilidades” de água. Em cima da mesa há duas possibilidades: a reutilização de águas residuais e a dessalinização de água do mar.

Na reutilização de águas residuais, Portugal estará na cauda da Europa e do Mundo. A agricultura em Israel é irrigada em 85% por águas residuais urbanas tratadas; Espanha fica-se pelos 12%. Em Portugal não há qualquer registo oficial. “Pelo que ouvi de alguns representantes, reutilizamos 2% das águas”, conta Filipe Duarte Santos. Para justificar a falta de implementação desta medida, o especialista aponta uma “questão cultural”.

A dessalinização, por sua vez, é uma técnica muito aplicada em regiões junto do mar - o que para um país com a linha costeira como a de Portugal não devia ser um problema. Salvo na ilha de Porto Santo na Madeira, esta solução ainda não tem representação em território nacional. Por comparação, o sul de Espanha - regiões de Almeria, Múrcia e Alicante - é maioritariamente abastecido por água dessalinizada. Esta medida, todavia, acarreta alguns inconvenientes: “o custo da transformação da água ainda é elevado e há resíduos produzidos durante o processo”.

A ideia de racionamento pelo cidadão comum não convence João Camargo. Os consumos domésticos são irrisórios por comparação com os industriais ou agrícolas”, diz. Relativamente ao futuro das reservas de água, talvez devêssemos olhar para o passado, sugere o especialista: “Podemos voltar a construir reservatórios subterrâneos, tal como acontecia quando éramos um país árabe há mil anos.”